Crueldade e limpeza

Em geral, o alemão colocava-se na ponta, ligeiramente escondido atrás da esquina do último forno. Passávamos à frente dele como se fossemos subir as escadas que davam para o sótão. As vítimas mal o viam, e assim que acabávamos de passar por ele, disparava, encostando o cano à nuca. Ao fim de algum tempo, mudaram de método; passaram a utilizar um fuzil de ar comprido, pois a bala da pistola era demasiado grossa e o impacto, muito próximo, fazia explodir o crânio da vítima. O facto de ficar sujo incomodava o alemão.


Shlomo Venezia, respondendo à pergunta "Onde estava o SS, nessas situações (quando as pessoas demasiado fracas - doentes, deficientes, idosos - eram enviadas para o Crematório de camião)?"
Cf. Sonderkommando.

Alguma coisa terrível

A única sugestão que Norman* teve de que acontecia algo mais sinistro surgiu na escola. Um colega fizera um desenho de um judeu a entrar por uma fábrica e a sair transformado em barras de sabão. O professor achou que o desenho era tão bom que circulou por toda a aula. Dado que já fora repreendido pelo pai ao fazer perguntas sobre as mortes dos polacos, Norman não referiu o desenho ao pai. «Mas senti que se estava a passar alguma coisa terrível», lembra.

Depoimento de Norman Frank, o filho mais velho do carniceiro Hans Frank, o governador-geral da Polónia.
Tradução de Artur Lopes Cardoso.

N.B.: Os nazis fizeram correr o boato de que os judeus eram mortos e transformados em sabão. Na realidade nunca se fez sabão da gordura dos judeus assassinados. Mas fez-se, por exemplo, abatjours (veja-se o caso de Ilse Koch, a Megera de Buchenwald).

Cartaz em Treblinka

Atenção judeus de Varsóvia!
Estão a entrar num campo de trânsito de onde serão transportados para um campo de trabalho.
Como medida de prevenção de epidemias, as roupas e bagagens deverão ser entregues para desinfecção. O ouro, o dinheiro, divisas e as jóias devem ser depositadas na caixa contra um recibo. Mais tarde serão devolvidas mediante apresentação desse comprovativo. Todos os recém-chegados deverão tomar banho antes de prosseguir a viagem.



Imagem: Em 1943 as valas comuns foram abertas e os seus corpos queimados. O objectivo era apagar a memória da existência de um campo de concentração chamado Treblinka, onde, entre Junho de 42 e Agosto de 43, 850 000* pessoas morreram.
Tradução de José Lima.


* Segundo dados da Wikipedia.

Executados "devidamente"

Riscos para a saúde do pessoal que trabalha com as carrinhas de gás

Extracto de um relatório escrito em 16 de Maio de 1942 pelo Tenente das SS August Becker. Diz respeito às carrinhas especialmente construídas para serem utilizadas na Ucrânia, na Sérvia e no campo de extermínio de Chelmno.


Está concluída a vistoria dos veículos dos Einsatzgruppen D e C.
Mandei camuflar os veículos do Grupo D como caravanas-atrelados, fixando um simples estore em cada um dos lados das carrinhas pequenas e dois nas maiores, como se vê frequentemente nas casas de campo do país. As carrinhas tinham-se tornado tão conhecidas, não só pelas autoridades, mas também pela população civil, que começavam a falar em "carrinhas da morte" mal as viam aparecer. No meu entender, as carrinhas não se podem manter secretas por muito mais tempo, mesmo camufladas. (...)
Dei também instruções para que todo o pessoal se mantenha o mais afastado possível das carrinhas quando se efectuam gaseamentos, de modo a evitar riscos para a saúde no caso de fugas de gás. Quero aproveitar a oportunidade para chamar a atenção para o seguinte: muitas unidades especiais permitem que sejam os seus próprios homens a descarregar os veículos depois dos gaseamentos. Já fiz notar aos chefes do Sonderkommando (Unidades Especiais) que isto pode acarretar enormes problemas psicológicos e físicos para os seus homens, quer de imediato quer posteriormente. Os homens queixam-se de dores de cabeça que sofrem depois de cada descarga. No entanto, verifica-se uma certa relutância em mudar as instruções e passar a utilizar presos na tarefa, por se recear que estes aproveitem o momento para se escaparem. Solicito instruções adequadas para evitar danos aos nossos homens.
Os gaseamentos não são de um modo geral executados devidamente. Procurando terminar o mais rapidamente possível a tarefa, o condutor carrega fundo no acelerador. Isto faz com que as pessoas a executar morram por asfixia em vez de começarem por adormecer, como estava programado. Está provado que se seguirem as minhas instruções e os pedais forem utilizados como deve ser, a morte ocorre mais rapidamente e os presos adormecem tranquilamente. Os rostos contorcidos e os excrementos, que antes se podiam observar, nunca mais voltaram a verificar-se.
Prossigo hoje a minha viagem até ao Grupo Einsatz B, para onde me poderão ser enviadas novas instruções.

Tradução de José Lima.

Processo industrial de matar

Cinco a cinco descem o caminho das chegadas. É o caminho das partidas, mas não o sabem ainda. É um caminho de sentido único. Seguem em ordem perfeita - para que nada lhes possa ser apontado. Chegam a um grande edifício e suspiram. Finalmente chegaram ao destino. E quando os soldados berram ordens, quando lhes gritam que se dispam, começam por despir as crianças, cautelosamente para não os acordarem de repente. Depois de dias e noites de viagem os miúdos estão nervosos e rabugentos e então as mulheres começam a despir-se diante das crianças sem nada mais poderem fazer e quando a cada uma lhe estendem uma toalha perguntam-se se a água estará quente, pois que os pequenos não podem apanhar frio e quando por outra porta os homens, nus também, entram para os duches, as mulheres escondem as crianças com os seus corpos. E talvez nesse momento todos eles compreendam.

Charlotte Delbo.


Tradução de José Lima.

Imagem: Judeus húngaros a caminho das câmaras de gás (Auschwitz, Maio de 1944).

Jogo anti-semita


O jogo chama-se "Juden Raus!" (Fora os judeus!). As caras das figuras são caricaturas aos judeus e os seus chapéus têm o aspecto daqueles que os judeus eram obrigados a trazer na Idade Média. Considerado um "jogo muito divertido", o seu objectivo consistia no mote: "Se conseguires pôr fora 6 judeus, obterás uma clara vitória!".

Génesis ao avesso.

Escrito a lápis
no vagão de carga selado

Aqui neste vagão
estou eu Eva
Com o meu filho Abel
Se virem o meu filho mais velho
Caim filho de Adão
digam-lhe que eu


Dan Pagis.
Tradução de José Lima.

O medo

Os alemães chegaram e começaram a bater às portas: "Raus, raus, raus, Juden raus."... Um bebé começou a chorar. Então a mãe urinou na sua mão e deu ao bebé líquido para o manter em silêncio. [Quando a polícia se foi embora] eu disse às mães para saírem do esconderijo. E um bebé estava morto... De medo, a mãe tinha sufocado o seu próprio filho.

Testemunho de Abraham Malik, falando sobre o ghetto Kovno.

Nota: De 37 mil judeus do gueto, apenas 3 mil sobreviveram à Guerra.

Isaías 2:4

"Lo yiso goy él goy chérev, lo yilm'dou od michomo".
"Não levantará espada nação contra nação, nem aprenderão mais a guerra".


Tanach.

O divertimento número III

Antes de o matarem, conduziam-no perante uma máquina de secar roupa brilhante de brancura e obrigavam-no a passar a ponta dos dedos entre os dois rolos de borracha destinados a torcer a roupa. Depois, um dos SS, ou um detido às suas ordens, rodava a manivela da máquina de secar. O braço da vítima era puxado até ao cotovelo ou até ao ombro pela máquina. Os gritos do supliciado eram o principal prazer dos SS.


Constantin Simonov,
Maïdanek, Un Camp D'Extermination.
Tradução de António Moreira e Maria da Piedade Moreira.

Deus...

Eu era o acusador, Deus o acusado. Os meus olhos estavam abertos e eu estava sozinho - terrivelmente sozinho num mundo sem Deus nem humanidade.

Elie Wiesel, A Noite.
Tradução de Filipa F.

Anne Frank, sobre os "progroms"

Depois de Maio de 1940 os bons tempos foram poucos e muito afastados: primeiro houve a guerra, depois a capitulação e a seguir a chegada dos alemães, altura em que começaram os problemas para os judeus. A nossa liberdade foi severamente restringida por uma série de decretos antijudeus: os judeus tinham de usar uma estrela amarela; os judeus tinham de entregar as suas bicicletas; os judeus estavam proibidos de andar de carro, mesmo no seu próprio carro; os judeus tinham de fazer as suas compras entre as 3 e as 5 da tarde; os judeus tinham de frequentar apenas barbearias e cabeleireiras de propriedade judaica; os judeus estavam proibidos de andar na rua entre as 8 da noite e as 6 da manhã; os judeus estavam proibidos de ir aos teatros, cinemas ou qualquer outra forma de entretenimento; os judeus estavam proibidos de usar piscinas, campos de ténis, campos de hóquei ou quaisquer outros campos desportivos; os judeus estavam proibidos de praticar remo; os judeus estavam proibidos de participar em qualquer actividade desportiva em público; os judeus estavam proibidos de se sentarem nos seus jardins ou nos jardins dos seus amigos depois das 8 da noite; os judeus estavam proibidos de visitar as casas de cristãos; os judeus tinham de frequentar escolas judaicas, etc. Não se podia fazer isto e não se podia fazer aquilo, mas a vida continuava. Jacque costumava dizer-me: "Já não me atrevo a fazer seja o que for, pois tenho medo de que seja proibido".


Anne Frank, Diário de Anne Frank (Versão Definitiva).
Tradução de Elsa T. S. Vieira.

Imagem: A última foto de Anne Frank.

Anedota IV

Um soldado alemão, fatalmente ferido, pede ao seu capelão para que este lhe conceda um desejo final: "Ponha uma imagem de Hitler de um lado e uma de Goering de outro. Assim posso morrer como Jesus, entre dois ladrões".

John Morreall, Humour in the Holocaust, Its Critical, Coesive and Coping Functions.
Tradução de Filipa F.

Never Shall I Forget

Jamais esquecerei esta noite, a primeira noite de campo, que fez da minha vida uma noite longa e sete vezes aprisionada.
Jamais esquecerei este fumo.
Jamais esquecerei aqueles pequenos rostos das crianças de quem eu vi os corpos transformarem-se em volutas sob o azul cinzento do céu.
Jamais esquecerei aquelas chamas que consumiram para sempre a minha fé.
Jamais esquecerei este silêncio nocturno que me privou até à eternidade do desejo de viver.
Jamais esquecerei estes instantes que assassinaram o meu Deus, a minha alma e os meus sonhos, que se reduziram ao rosto do deserto.
Jamais esquecerei isto, mesmo que fosse condenado a viver tanto tempo quanto o próprio Deus. Jamais.


Elie Wiesel, A Noite.
Tradução de António Moreira e Maria Piedade Moreira.

Dias em Auschwitz...


"2/9/42: Assisti, pela primeira vez, às três horas da manhã, a um «tratamento especial». O Inferno, de Dante, comparado com isso, quer-me parecer uma comédia...
5/9/42: Participei num «tratamento especial», no campo de concentração de mulheres... O Dr. Thilo, médico militar, tinha razão: encontramo-nos aqui no «anus mundi». Esta noite, por volta das oito horas, novamente um «tratamento especial» da Holanda...
6-7/9/42: Hoje tivemos um almoço excelente: sopa de tomate, meio frango com batatas e repolho roxo, depois doce e um delicioso sorvete de baunilha... À noite, às oito horas, assisti, lá fora, a um «tratamento especial».
9/9/42: Participei, esta noite, num «tratamento especial» (quatro vezes). Quantos sósias tenho eu neste mundo?"


Do diário pessoal Dr. H. Kremer, professor da Universidade de Munster e capitão das S.S.

Foto: Membros do Sonderkommando de Auschwitz a queimarem corpos.